Em fevereiro de 2011, Fernanda Dourado colou grau em Direito em Caçador, no Meio-Oeste catarinense. Tinha 25 anos, emprego, apartamento e namorado.

Em abril de 2013, ela sofreu o primeiro AVC. A paralisia no lado esquerdo do corpo a obrigou a caminhar com bengala. Vieram cinco anos de fisioterapia, terapia ocupacional e reabilitação intensa, segundo relato da família ao Portal Sou Catarina. Mesmo com as sequelas, ela falava em voltar a dirigir, namorar e morar sozinha.

Três dias depois de passar o Natal de 2017 com o pai em Caçador, em janeiro de 2018, veio o segundo AVC. Desta vez, a tempestade foi mais funda. Fernanda perdeu a comunicação. Passou a depender de cadeira de rodas. Ficou internada na UTI sem previsão de alta.

O namorado foi embora. A maioria dos amigos também.

Eu não joguei a corda. Eu desci lá para buscar.

Jaqueline Farias Dourado, madrasta de Fernanda

O pai que desacelerou a vida

Álvaro Ribas Dourado, engenheiro agrônomo da Cidasc com uma rotina profissional intensa, mudou tudo após o primeiro AVC da filha. Conforme depoimento de Jaqueline ao Sou Catarina, ele desacelerou a própria vida para dedicar tempo e cuidado integral a Fernanda. O homem de “220W”, como a esposa o descreve, virou paciência. Caminhou ao lado da filha em ritmo lento, segurou seu braço em sessões dolorosas, e nunca soltou sua mão.

Em comentário público nas redes sociais da família, Álvaro escreveu: “Meu único pedido a Deus foi que deixasse a Fer comigo que iria cuidar dela com todo meu amor”.

A madrasta que atravessou o Brasil

Jaqueline Farias Dourado, 32 anos, é engenheira agrônoma nascida em Sinop (MT), a mais de 2 mil quilômetros de Caçador. Conheceu Fernanda em 2017, quando começou a namorar Álvaro à distância. Esteve com a enteada apenas duas vezes antes do segundo AVC. A última, no Natal daquele ano. Três dias depois, Fernanda foi internada.

Quando Álvaro pediu que ela voltasse a Santa Catarina, Jaqueline conseguiu voo, ônibus e carona no mesmo dia. Encontrou Fernanda na UTI sem previsão de alta. Foi ali, dentro do hospital, que o casal tomou uma decisão: ficariam juntos, fosse qual fosse o desfecho. Namoravam havia quatro meses.

Jaqueline trancou o curso de Agronomia na UFMT. Encerrou o estágio na Embrapa. Vendeu a moto. Desmontou o apartamento alugado em Sinop. E se mudou para Caçador.

A rotina que se tornou rede

Hoje, Fernanda não se comunica por palavras. Não avisa quando sente dor de cabeça ou cólica. Não gosta de ser tocada no banho. A família aprendeu a ler sinais. A rotina inclui fisioterapia, terapia ocupacional e sessões com a psicopedagoga Susi, descrita por Jaqueline como a “melhor amiga” da enteada.

Quem ajuda a sustentar a casa há mais de duas décadas é Angela, funcionária da família há 22 anos. Renata, irmã de Fernanda, divide os cuidados. Nos momentos mais delicados, como coleta de sangue ou corte de unhas, quem assume é a madrasta. “Para mim como madrasta esses momentos podem ser menos doloridos”, explicou Jaqueline ao Sou Catarina. “E para a Fer também, que talvez não se sinta tão chateada se fosse o pai dela ou a irmã.”

O perfil que virou fenômeno

O que começou como um canal para avisar amigos sobre a saúde da Fernanda virou fenômeno nas redes sociais. Jaqueline passou a postar vídeos da enteada no perfil @fernandadourado_especial, mostrando reações espontâneas, situações engraçadas e pequenas conquistas diárias. Os vídeos viralizaram. Pessoas com AVC na família, mães de crianças autistas e outras madrastas passaram a acompanhar.

“No fundo é isso que importa”, disse Jaqueline ao portal. “Ela viveu 25 anos bem intensos e construiu laços que talvez alguém que viva 80 não consiga.”

Até a última atualização, Fernanda segue em reabilitação em Caçador, cercada pelo pai, pela irmã, pela madrasta e por Angela. A família mantém o perfil ativo nas redes sociais como apoio para outras famílias que enfrentam sequelas de AVC.