Moradores de Porto Belo, no Litoral Norte Catarinense, denunciam que a água fornecida pela Porto Belo Abastecimento vem chegando às torneiras com coloração escura, odor forte e aspecto que eles próprios descrevem como de “água podre” há quase um mês.

A crise se sobrepõe a um histórico recente de instabilidade no sistema. Entre os dias 29 de janeiro e 2 de fevereiro de 2026, durante a alta temporada, a cidade enfrentou um desabastecimento que durou até seis dias em diferentes bairros. Dois meses depois, a queixa mudou de natureza: a água chega, mas, segundo os moradores, em condições que impedem o consumo e comprometem tarefas básicas do dia a dia.

“Tenho caixa, mas essa água vem direto da rua”

O caso mais documentado parte do Condomínio Edifício Portland Park, localizado na Rua Virgínia Ledra Cavilha, esquina com a Avenida Hironildo Conceição dos Santos, no bairro Jardim Dourado. Desde o dia 6 de abril, o síndico Egon Milton Friedrich Neto vem protocolando ofícios formais a seis órgãos diferentes: Porto Belo Abastecimento, Procon municipal, Vigilância Sanitária, Prefeitura, Câmara de Vereadores e Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

Balde com água quase preta retirada do cavalete do Condomínio Portland Park, em Porto Belo, em 18 de abril, três dias depois da visita técnica da concessionária | Foto: Egon Friedrich/Divulgação
Balde com água quase preta retirada do cavalete no Vivapark, em Porto Belo, em 18 de abril

A situação não está restrita a um único prédio. Em registros enviados à reportagem, moradores de diferentes endereços da cidade apresentam o mesmo cenário.

Um morador da Rua Olinda Peixoto gravou a água saindo direto para dentro da máquina de lavar roupas. O líquido aparece amarelado, com coloração incompatível com o uso doméstico.

ASSISTA AO VÍDEO

Água amarelada enchendo máquina de lavar em residência da Rua Olinda Peixoto, em Porto Belo

Tenho caixa, mas essa água da máquina vem direto da rua. A minha água da caixa é para a descarga e pia do banheiro.

Morador da Rua Olinda Peixoto, Porto Belo

Outra moradora, que reside na Rua Benedito Guerreiro, também enviou registros da água que chegou em sua residência nas últimas semanas. No condomínio Vivapark, que possui filtro de sedimentos instalado na entrada de cada apartamento, um morador gravou a retrolavagem do equipamento, procedimento que ele próprio faz a cada 15 dias. A água descartada saiu marrom e com material em suspensão.

ASSISTA AO VÍDEO

Retrolavagem do filtro de sedimentos instalado em apartamento do condomínio Vivapark, em Porto Belo

Registros semelhantes chegaram também do condomínio Mumbai Tower. Fotos enviadas pelos denunciantes mostram água marrom dentro de baldes, pias com resíduos visíveis, vasos sanitários com coloração amarela persistente mesmo após a descarga e filtros domésticos com acúmulo visível de sujeira.

Cartucho de filtro doméstico totalmente marrom após poucos dias de uso, em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação
Cartucho de filtro doméstico totalmente marrom após poucos dias de uso, em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação
Banheira de bebê com água amarronzada usada por moradora do Portland Park | Foto: Divulgação
Banheira de bebê com água amarronzada usada por moradora do Portland Park | Foto: Divulgação

“A situação agora está pior do que em 2024”

Eu era síndico em 2024 e não passamos pelos problemas que estamos tendo hoje. Não me recordo da qualidade da água tão ruim naquela época como estamos agora.

Morador de Porto Belo

A comparação tem peso. Em 2024, o município chegou a decretar situação de calamidade pública no sistema de abastecimento de água por meio do Decreto nº 3950, em virtude da escassez hídrica enfrentada na época, com medidas de racionalização do uso da água. Mesmo naquele cenário de calamidade, segundo o relato, a qualidade da água não chegou ao nível de deterioração relatado agora.

A versão da concessionária

Segundo a Porto Belo Abastecimento, administrada pela Empresa Brasileira de Saneamento (EBS), não houve falha operacional no sistema. A explicação oficial foi dada por e-mail pelo gerente operacional Júlio César Trentini, em resposta a protocolo formalizado pelo condomínio.

Conforme Trentini, o problema estaria relacionado à capacidade de tratamento da Estação de Tratamento de Água (ETA), que não teria suportado a estiagem prolongada combinada com a forte chuva dos dias 6 e 7 de abril. Ainda conforme a empresa, a água estaria saindo da ETA dentro dos parâmetros de cor e turbidez desde a quarta-feira, 8 de abril. O amarelado que segue chegando até as torneiras, segundo a concessionária, estaria preso na rede de distribuição e seria removido por descargas feitas diretamente no cavalete dos clientes que reclamam.

Essa aparência é somente aparência, a turbidez da água segue dentro dos parâmetros desde sempre.

Júlio César Trentini, gerente operacional da Porto Belo Abastecimento

Em publicação feita em 6 de abril, nas redes sociais, a Porto Belo Abastecimento também atribuiu a alteração de cor à baixa nos mananciais causada pela estiagem, afirmando que, com menos água nos rios, aumenta a concentração de matéria orgânica e de outros compostos naturais, o que pode dificultar temporariamente o tratamento.

O laudo que não veio

No dia 15 de abril, um técnico da concessionária esteve no Portland Park, abriu o cavalete de entrada do condomínio e despejou a água como forma de demonstração. Segundo o síndico, a empresa afirmou verbalmente que a água estaria limpa, mas não apresentou laudo laboratorial que sustentasse a alegação. Três dias depois, em 18 de abril, um novo registro mostrou a água ainda saindo escura no mesmo ponto.

Até o momento, o condomínio também não teria recebido resposta sobre ressarcimento pelos custos já assumidos com as limpezas internas.

A limpeza que não durou um mês

Entre os dias 18 e 19 de março, o Portland Park contratou a empresa D.D. TEC e executou a limpeza completa dos quatro reservatórios internos, duas cisternas e duas caixas d’água, sendo uma para cada torre do prédio. O procedimento foi documentado em certificado emitido pela empresa responsável, que possui alvará sanitário.

Menos de um mês depois, conforme o síndico, a água nos reservatórios voltou a ficar com aspecto ruim. Para refazer a limpeza, segundo ele, seria necessário descartar cerca de 60 mil litros de água, o equivalente à reserva técnica do bombeiro do condomínio, sem contar o custo do serviço em si. A hipótese defendida no ofício enviado aos órgãos é de que a nova sujeira tem origem externa, uma vez que o sistema interno foi higienizado há menos de 30 dias.

Purificador doméstico cheio de água com tonalidade amarelada em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação
Purificador doméstico cheio de água com tonalidade amarelada em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação

Os protocolos e as respostas

Entre 6 e 14 de abril, o Portland Park encaminhou ofícios formais a seis instâncias diferentes. As respostas chegaram em ritmo desigual.

O Procon de Porto Belo confirmou recebimento em 8 de abril e repassou a demanda à concessionária. Em nova manifestação, no dia 17, o órgão informou que houve reunião com engenheiros da empresa, mas que o parecer só seria dado na semana seguinte, após o fim do recesso.

A Vigilância Sanitária respondeu em 16 de abril e agendou vistoria técnica com coleta de amostras para o dia 30 de abril. O material será encaminhado ao LACEN, o Laboratório Central de Saúde Pública, para análise físico-química e microbiológica completa, com o objetivo de verificar se a água atende aos padrões de potabilidade vigentes.

O MPSC registrou a manifestação sob o protocolo nº 11.2026.00009216-6 pela Ouvidoria, em 13 de abril, e solicitou cópias das respostas dos demais órgãos para complementar a análise.

A Prefeitura respondeu em 16 de abril, por meio do mesmo gerente operacional da concessionária, ratificando a explicação técnica da EBS.

Na Câmara de Vereadores, o síndico relatou que tentou contato pela Secretaria sem sucesso e enviou e-mail direto aos vereadores. Dois responderam. O vereador Bento Sebastião Voltolini informou que haveria reunião entre o Executivo, membros do Legislativo e representantes das empresas responsáveis pelo abastecimento. O vereador Professor Juliano confirmou ter participado de encontro com o vereador Giliardi, um representante da EBS e o presidente do SAMAE, em que foi estimada a normalização do abastecimento em até quatro dias.

Relatos de saúde

Os ofícios protocolados pelo condomínio citam relatos de moradores sobre possíveis impactos à saúde. As queixas incluem coceira, descamação e queda de cabelo. Trata-se de versão atribuída aos próprios moradores em grupos de conversa, sem, até o momento, qualquer comprovação técnica que relacione esses sintomas à qualidade da água.

Sobre esse ponto, a concessionária foi direta no retorno enviado ao condomínio. “Quanto à coceira, não posso entrar em mais detalhes por esse aspecto não ter correlação direta com a água”, afirmou Júlio Trentini.

A análise que será feita pelo LACEN deve ser o primeiro parecer técnico oficial sobre a potabilidade da água distribuída.

Vaso sanitário com resíduo esverdeado persistente após descarga em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação
Vaso sanitário com resíduo esverdeado persistente após descarga em apartamento de Porto Belo | Foto: Divulgação

A promessa do reservatório de 21 milhões de litros

Em setembro de 2025, a Prefeitura anunciou a conclusão da obra do novo reservatório de água bruta de 21,37 milhões de litros construído na ETA pela EBS. À época, o governo municipal afirmou que a estrutura traria “mais tranquilidade e segurança para moradores e visitantes” diante do crescimento populacional da cidade e do aumento de consumo durante o verão.

Sete meses depois, moradores relatam uma situação que, conforme o síndico do Portland Park, é pior do que a enfrentada no auge da calamidade de 2024.

Próximos passos

Até a última atualização, a coleta agendada pela Vigilância Sanitária segue marcada para 30 de abril, com envio posterior ao LACEN. O condomínio Portland Park também agendou, de forma independente, uma coleta particular para o dia 23 de abril, contratada pelos próprios moradores junto a um laboratório privado.

A Porto Belo Abastecimento mantém a posição oficial de que a água distribuída está dentro dos parâmetros. O Ministério Público aguarda a complementação documental. Os processos administrativos junto ao Procon seguem sem parecer conclusivo.

Perguntas frequentes

Quem administra o abastecimento de água em Porto Belo?
O serviço é prestado pela Porto Belo Abastecimento, controlada pelo governo municipal e administrada pela Empresa Brasileira de Saneamento (EBS).

De onde vem a água distribuída na cidade?
A captação é feita no Rio Perequê. De lá, a água bruta segue para a Estação de Tratamento de Água (ETA), onde passa pelo processo de tratamento antes de ser distribuída.

O que diz a concessionária sobre a cor da água?
Segundo a empresa, a água sai da ETA dentro dos parâmetros de cor e turbidez desde 8 de abril. O amarelado, ainda conforme a concessionária, estaria preso na rede de distribuição, sendo removido por descargas.

Há risco comprovado para a saúde?
Não há, até o momento, laudo técnico que comprove risco. As queixas de coceira, descamação e queda de cabelo são relatos atribuídos a moradores. A análise do LACEN, agendada pela Vigilância Sanitária, será o primeiro parecer oficial sobre a potabilidade.

Quando sai o resultado da análise?
A coleta oficial está marcada para 30 de abril. O prazo para divulgação dos resultados pelo LACEN não foi informado.