Representantes do sindicato dos servidores públicos de São José fizeram, durante assembleia geral realizada na última terça-feira (14), declarações que projetam a paralisação de serviços essenciais de saúde no município. Entre as ameaças registradas no encontro, estão o fechamento de salas de vacinação, de curativo e de dispensação de medicamentos, mesmo com a prefeitura ainda em período oficial de negociação com a categoria.
A fala mais direta ecoou pela plenária. Diante dos presentes, uma das lideranças afirmou a disposição de parar o atendimento ao público como ferramenta de pressão.
“Nós somos uma categoria que podemos ser muito forte. Se nós pararmos na unidade de saúde, como a colega aqui falou, não ganha para três dias. Vamos fechar a sala de vacina, vamos fechar curativo, vamos fechar a medicação, vamos fechar tudo. E daí? Quem é que vai fazer? Quem é que vai estar lá pesando com o Bolsa Família? Quem é que vai estar atendendo a população?”
Antes mesmo da greve
As ameaças foram feitas antes de qualquer paralisação oficial. Os servidores de São José estão em estado de greve, ou seja, ainda em etapa de negociação com a prefeitura, sem greve efetivamente decretada. Mesmo assim, durante a semana, moradores relataram dificuldades no atendimento dos postos de saúde do município, inclusive na vacinação, um dos serviços mais sensíveis da rede pública.
O sinal, portanto, veio antes do encaminhamento formal. Do palco da assembleia, servidores já falavam abertamente em desmobilizar o atendimento ao público e em usar os serviços essenciais como ferramenta de pressão sobre a administração municipal.
“Sala de vacina não vai funcionar”
Durante o encontro, uma das servidoras se apresentou como vacinadora do posto do bairro Serraria e avisou que, caso a greve seja decretada, interromperá o atendimento no seu local de trabalho.
“Porém, o dia que entrar em greve, a sala de vacina do Serraria não irá funcionar mais. Enquanto o prefeito não me ouviu, a sala de saúde do Serraria não vai funcionar, porque eu sou vacinadora e eu não estarei lá.”
A mesma servidora relatou, diante dos colegas, que um paciente a procurou pelo WhatsApp enquanto ela estava na assembleia, perguntando se a sala de vacina estaria aberta durante o dia. “Eu falei ‘não, estamos em assembleia lutando pelos nossos direitos'”, declarou. Segundo ela, caso a greve seja deflagrada, não haverá atendimento no posto.
O que o sindicato pede
Conforme o Sintram/SJ, sindicato que conduz a pauta, as principais reivindicações da data-base de 2026 são:
- Realização e chamamento de concurso público em todas as áreas, para melhorar o atendimento à população;
- Isonomia na carreira;
- Inserção do cargo de auxiliar de ensino de Educação Especial no plano de carreira do magistério;
- Revisão salarial de técnicos e auxiliares de enfermagem;
- Defesa da previdência.
O sindicato também manifestou repúdio a tentativas de terceirização de serviços na área da saúde, prática que a categoria classifica como retrocesso.
O que motivou o estado de greve
A deliberação pelo estado de greve foi aprovada originalmente em 31 de março, em razão do descumprimento, por parte do Executivo, de pontos do acordo firmado na data-base de 2025. Um dos pontos centrais é a criação do cargo de auxiliar de Educação Especial fora do quadro do magistério, aprovada pela Câmara Municipal em dezembro, medida que retirou desses profissionais o direito à hora-atividade e ao piso da categoria.
Segundo o Sintram/SJ, na véspera da assembleia desta semana o Executivo não apresentou qualquer proposta e enviou, horas antes do encontro, um documento negando o pleito dos servidores. Ao fim da reunião, a categoria realizou caminhada até a prefeitura em protesto contra a intransigência do governo municipal, gestão Orvino/Michel.
Serviços que não têm substituto
Sala de vacina, curativo e dispensação de medicamentos são serviços que, quando interrompidos, atingem diretamente quem mais depende do SUS municipal. Crianças em calendário vacinal, idosos em tratamento contínuo, pacientes com feridas sob acompanhamento e moradores que retiram medicação de uso diário ficam sem alternativa imediata quando a porta do posto se fecha.
O discurso repetido do palco, “quem é que vai fazer?”, expõe o raciocínio que orienta a mobilização: pressionar a prefeitura colocando o atendimento ao cidadão como moeda de negociação. Em São José, onde a rede municipal atende moradores diariamente, o impacto desse cálculo recai sobre quem procura o serviço.
O que acontece agora
Nova assembleia está marcada para o dia 29 de abril, a partir das 13h. Na ocasião, a categoria deverá deliberar sobre a deflagração efetiva da greve, caso as negociações não avancem. Até o momento, não havia manifestação pública da prefeitura de São José sobre as falas registradas na assembleia. A reportagem segue acompanhando os desdobramentos.

